sexta-feira, 23 de julho de 2010

John Fante... Outsider Verdadeiro







Um cara sem medo de emoção

Se me perguntassem qual foi o livro que mais gostei de ler, responderia sem vacilar: Pergunte ao Pó, de John Fante. Ele trouxe de volta um tipo de emoção experimentado no final dos anos 60, com a descoberta de J. D. Salinger, do Holden Caulfield de O Apanhador no Campo de Centeio aos membros da família Glass, à qual pertencia Seymour, o suicida poeta zen. Em comum entre os dois, uma infinita piedade pela condição humana e a inocência de personagens perdidas num mundo de relações incompreensíveis.

Sonhos de Bunker Hill traz de volta o alter-ego de Fante: o escritor Arturo Bandini, visto alguns anos depois de Pergunte ao Pó. O virginal Bandini do livro anterior agora batalha no mundo dos roteiros cinematográficos de Los Angeles cidade que ele amou e cantou como ninguém -, fascinado por traseiros femininos, em luta contra a falta de grana e, quase sempre, de inspiração para escrever.

Publicado originalmente em 1982, um ano antes da morte de Fante, aos 74 anos, o livro tem uma peculiaridade: não foi escrito, mas ditado a Joyce; mulher do autor. Cego, com as duas pernas amputadas devido a problemas com diabetes, essa foi a única maneira que Fante encontrou de não parar de escrever. Não podia parar. E, escrevendo ou ditando, a emoção era sempre a mesma: tripas e coração, como diz seu admirador Bukowski, misturados no mesmo esfoço de fundir humor e dor, ternura e ridículo, grandeza e miséria. Bandini é palhaço, herói, gigoló, artista, vagabundo, romântico: tudo ao mesmo tempo.Daí talvez sua irresistível simpatia, capaz de fazer com que qualquer um de nós se identifique com suas confusões.

Em volta de Bandini, uma galeria de personagens ­ muitas nitidamente calcadas em modelos reais daquela fauna absurda dos anos de ouro de Hollywood, nas décadas de 30 e 40 - tão malucas quanto ele. Podem ser a roteirista Velda van der Zee, autora (em co-autoria com Bandini) do hilariante faroeste Sun City, ou o também roteirista Frank Edgington, vagamente homossexual, com quem Bandini divide uma história ambígua, regada a vinho e maconha (ele agora está menos moralista do que quando conheceu Camila Lopez, a inesquecível princesa maia de sapatos em farrapos, de Pergunte ao Pó), o lutador Duque de Sardenha, ou a amante Helen Brownell, dona do hotel onde ele mora. Em todos, a palavra de Fante não demarca nenhum limite definido entre a dignidade e o grotest;o. Nessa delicada faixa de transição do cómico para o trágico, nessa corda-bamba entre o que se gostaria de ser e o que realmente se é, equilibram-se as pungentes criaturas de Fante. Que fazem rir um riso nervoso, de olhos molhados.


Os sonhos sonhados em Bunker Hill, guardadas circunstâncias e proporções, são os mesmos sonhos de todos nós. É o sonho de um trabalho criativo e gratificante, que a realidade acaba por reduzir a duas palavras no roteiro de Sun City: Whoa! e À toda! Os sonhos de um grande amor pulverizados pelo cansaço sem sex-appeal de uma cinquentona, e a modesta contestação, "Éramos bons um para o outro, Helen Browne e eu". O sonho de uma volta triunfante ao lugar de origem - quando Bandini retorna a Boulder, no Colorado, e um porre antiestratégico transforma em tombo as vantagens contadas sobre Johnny Weismuer e Esther Williams e Buster Crabbe. Em todos os tombos de Bandini, o desmentido da fantasia de que a vida, afinal, seja menos mesquinha. Viver, a própria vida vai provando aos pouquinhos, não tem nenhum happy-end em technícolor e cinemascope.

Para Fante-Bandini, a única forma de conquistar essa ilusão de sentido, grandeza ou beleza da vida talvez tenha sido escrever. Por isso, no final, com "dezessete dólares na carteira e o medo de escrever", ele senta-se em frente à máquina, e, orando a Deus e a Knut Hamsum, inicia o processo mágico e salvador de transformar em ficção cheia de poesia uma realidade que nem sempre foi tão poética assim. "Ah vida!" - ele clamava em Pergunte ao Pó. -"Tua amarga doce tragédia, sua puta deslumbrante que me levaste à destruição ".

John Fante não foi exatamente "um gigante da literatura ", nem escreveu sobre grandes tragédias da alma humana: detinha-se sobre o pequeno, com muito cuidado. Com doses generosas de sentimentos raros: perdão e amor. Ele escreveu pouco: além de Pergunte ao Pó e Bunker Hill, sua obra compõem-se apenas de Wait Until Spring, Bandini (1938), os contos de Dago Red (1940), Full of Life (1952) e The Brother­hood of Grape (1977).

Passou quase toda a vida retirada dos cintilantes circuitos da badalação, às voltas com problemas de saúde. Era um homem muito simples, todos dizem. Sabia que suas histórias não tinham muitas pretensões mais do que, resgatar do pó do esquecimento figuras que, se ele não as tivesse lembrado, permaneceriam para sempre anônimas. Sabia também que tudo parece meio idiota quando se pensa na morte. E que as pessoas, de muitas maneiras estranhas, tortuosas, piradas, no final das contas só querem amar e ser felizes. Doloroso é que isso, que parece tão pouco, seja geralmente tão inatingível. Fante-Bandini sabia muito bem de todas essas coisas.

sábado, 10 de abril de 2010

O Tratado do Lobo da Estepe - Só Para Loucos - Herman Hesse

Era uma vez um certo Harry, chamado o Lobo da Estepe. Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo das estepes. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto às pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o estar contente consigo e com sua própria vida. Era incapaz disso, daí ser um homem descontente. Isso provinha, decerto, do fato de que, no fundo de seu coração, sabia sempre (ou julgava saber) que não era realmente um homem e sim um lobo das estepes. As pessoas argutas poderão discutir a propósito de ser ele realmente um lobo, de ter sido transformado, talvez antes de seu nascimento, de lobo em ser humano, ou de ter nascido homem, porém dotado de alma de lobo ou por ela dominado; ou, finalmente, indagar se essa crença de que ele era um lobo não passava de um produto de sua imaginação ou de um estado patológico. É inadmissível, por exemplo, que, em sua infância, fosse rebelde, desobediente e anárquico, o que teria levado seus educadores a tentar combater a fera que havia nele, dando ensejo assim a que se formasse em sua imaginação a idéia e a crença de que era, realmente, um animal selvagem, coberto apenas com um tênue verniz de civilização. A esse propósito poder-se-iam tecer longas considerações e até mesmo escrever livros; mas isso de nada valeria ao Lobo da Estepe, pois para ele era indiferente saber se o lobo se havia introduzido nele por encantamento, à força de pancada ou se era apenas uma fantasia de seu espírito. O que os outros pudessem pensar a este respeito ou até mesmo o que ele próprio pudesse pensar, em nada o afetaria, nem conseguiria afetar o lobo que morava em seu interior.

O Lobo da Estepe tinha, portanto, duas naturezas, uma de homem e outra de lobo; tal era seu destino, e nem por isso tão singular e raro. Deve haver muitos homens que tenham em si muito de cão ou de raposa, de peixe ou de serpente sem que com isso experimentem maiores dificuldades. Em tais casos, o homem e o peixe ou o homem e a raposa convivem normalmente e nenhum causa ao outro qualquer dano; ao contrário, um ajuda ao outro, e muito homem há que levou essa condição a tais extremos, a ponto de dever sua felicidade mais à raposa ou ao macaco que nele havia, do que ao próprio homem. Tais fatos são bastante conhecidos. No caso de Harry, entretanto, o caso diferia: nele o homem e o lobo não caminhavam juntos, mas apenas permaneciam em contínua e mortal inimizade e um vivia apenas para causar dano ao outro, e quando há dois inimigos mortais num mesmo sangue e na mesma alma, então a vida é uma desgraça. Bem, cada qual tem seu fado, e nenhum deles é leve.

Com nosso Lobo da Estepe sucedia que, em sua consciência, vivia ora como lobo, ora como homem, como acontece, aliás, com todos os seres mistos. Ocorre, entretanto, que quando vivia como lobo, o homem nele permanecia como espectador, sempre à espera de interferir e condenar, e quando vivia como homem, o lobo procedia de maneira semelhante. Por exemplo, se Harry, como homem, tivesse um pensamento belo, experimentasse uma sensação nobre e delicada, ou praticasse uma das chamadas boa ações, então o lobo, em seu interior, arreganhava os dentes e ria e mostrava-lhe com amarga ironia o quão ridícula era aquela nobre encenação aos seus olhos de fera, aos olhos de um lobo que sabia muito bem em seu coração o que lhe convinha, ou seja, caminhar sozinho nas estepes, beber sangue vez por outra ou perseguir alguma loba. Toda ação humana parecia, pois, aos olhos do lobo horrivelmente absurda e despropositada, estúpida e vã. Mas sucedia exatamente o mesmo quando Harry sentia e se comportava como lobo, quando arreganhava os dentes aos outros, quando sentia ódio e inimizade a todos os seres humanos e a seus mentirosos e degenerados hábitos e costumes. Precisamente aí era sua a parte humana existente nele se punha a espreitar o lobo, chamava-o de besta e de fera e o lançava a perder, amargurando-lhe toda a satisfação de sua saudável e simples natureza lupina.

Era isso o que ocorria ao Lobo da Estepe, e pode-se perfeitamente imaginar que Harry não levasse de todo uma vida agradável e feliz. Isso não quer dizer, entretanto, que sua infelicidade fosse por demais singular (embora assim lhe pudesse parecer, da mesma forma como qualquer pessoa torna o sofrimento que se abate sorte ela como sendo o maior do mundo). Isso não pode ser dito a propósito de ninguém. Mesmo aquele que não tem em seu interior um lobo, nem por isso pode ser considerado mais feliz. E mesmo a mais infeliz das existências tem os seus momentos luminosos e suas pequenas flores de ventura a brotar por entre a areia e as pedras. Assim também acontecia com o Lobo da Estepe. Não se pode negar que fosse, em geral, muito infeliz, e podia também fazer as outras pessoas infelizes, especialmente quando os queria ou era por eles estimado. Pois todos os que com ele se deram viram apenas uma das partes de seu ser. Muitos o estimaram por ser uma pessoa inteligente, refinada e arguta, e mostraram-se horrorizados e desapontados quando descobriam o lobo que mostrava nele. E assim tinha de ser, pois Harry, como toda pessoa sensível, queira ser amado como um todo e, portanto, era exatamente com aqueles cujo amor lhe era mais precioso que ele não podia de maneira alguma encobrir ou perjurar o lobo. Havia outros, todavia, que amavam nele exatamente o lobo, o livre, o selvagem, o indômito, o perigoso e forte, e estes achavam profundamente decepcionante e deplorável quando o selvagem e perverso se transformava em homem, e mostrava anseios de bondade e refinamento, gostava de ouvir Mozart, de ler poesia e acalentar ideais humanos. Em geral, estes se mostravam mais desapontados e irritados do que os outros, e dessa forma o Lobo da Estepe levava sua própria natureza dual e discordante aos destinos alheios toda vez que entrava em contato com as pessoas.

Quem, entretanto, imaginar que conhece o Lobo da Estepe e pode analisar sua existência lamentavelmente dividida, incorrerá, sem dúvida, em erro, pois ainda não sabe tudo. Não sabe que (como não há regra sem exceção e como um simples pecador em certas circunstâncias pode ser mais querido a Deus do que noventa e nove justos) Harry também conhecia de quando em vez exceções e momentos ditosos em sentir harmonia, e mesmo em raras ocasiões estabelecer a paz e viver um para outro de tal forma que não apenas um vigiava enquanto o outro dormia, mas também se fortaleciam ambos e cada um duplicava a energia do outro. Também na vida desse homem parecia, como em todas as partes do mundo, que o costumeiro, o consuetudinário, o conhecido e o normal tinham simplesmente por objeto permitir de quando em quando a pausa de um segundo de duração para dar lugar ao extraordinário, ao milagroso, à graça. Se tais curtas e raras horas de ventura compensavam e dulcificavam a triste sina do Lobo da Estepe, de forma que a felicidade e a desventura viessem a equilibra-se finalmente na balança, ou se, talvez, este breve, mas intenso usufruir daquelas poucas horas compensava todo o sofrimento e deixava um saldo favorável de alegria, é questão sobre a qual podem meditar as pessoas ociosas a seu talante. Também o Lobo meditava isso, em seus dias mais ociosas e inúteis.

A esse propósito há que acrescentar algo. Muita gente existe que se assemelha a Harry; especialmente muitos artistas pertencem a essa classe de homens. Todas essas pessoas têm duas almas, dois seres em seu interior; há neles uma parte divina e uma satânica, há sangue materno e paterno, há capacidade para ventura e para a desgraça,, tão contrapostas e hostis como eram o lobo e o homem dentro de Harry. E esses homens, para os quais a vida não oferece repouso, experimentam às vezes, em seus raros momentos de felicidade, tanta força e tão indizível beleza, a espuma do instante de ventura emerge às vezes tão alta e deslumbradora sobre o mar da dor, que sua luz espargindo radiância, vai atingir a outros com o seu encantamento. A isto se devem, a essa preciosa e momentânea espuma sobre o mar de sofrimento, todas aquelas obras artísticas em que o homem solitário e sofredor se elevam por uma hora tão alto sobre o seu próprio destino, que sua felicidade brilha como uma estrela, e parecem a todos os que a vêem como algo eterno e como se fosse seu próprio sonho de ventura. Todas essas pessoas sejam quais forem seus atos e obras, não têm propriamente uma vida, ou seja, sua vida carece de essência e de forma, não são heróis, nem artistas, nem pensadores de maneira como os demais homens são juízes, doutores, sapateiros ou mestres; sua existência é um movimento de fluxo e refluxo, está infeliz e dolorosamente partida e é sinistra e insensata, se não estivermos propensos a ver um sentido precisamente naqueles raros acontecimentos, ações, pensamentos e obram que brilham às vezes sobre o caos semelhante vida. Entre os homens dessa espécie surgiu o perigoso e terrível pensamento de que, talvez, toda a vida do homem não passa de um espantoso erro, de um aborto brutal da mão primava, um cruel e selvagem intento frustrado da Natureza. Mas entre eles surgiu também a idéia de que o homem talvez não seja apenas um animal dotado de razão, mas o filho de Deus destinado à mortalidade.....

Não faço Parte de Clube Nenhum

A figura do outsider. Do cara que não se enquadra. Do sujeito que não faz questão de pertencer a nenhuma turma. O cara que no colégio sentava na última carteira, não falava com ninguém e ia embora sozinho. Havia algo de muito maneiro em figuras desse naipe.

Numa sociedade onde qualquer babaca quer virar celebridade, a figura do "ninguém" sempre me pareceu o melhor modelo de vida. E aqui não vai nenhuma pretensão estilosa do tipo "é legal ser diferente". Porra nenhuma. O que eu penso é que simplesmente "ninguém precisa ser igual".

Cada pessoa devia andar por aí rezando pela própria Bíblia, ou seja, fazendo suas próprias leis e fazendo uso de seu livre arbítrio. Mas não é o que tem acontecido.

Assisto sem nenhum entusiasmo e com bastante perplexidade aqueles filmes americanos de turmas de universidade com aquelas indefectíveis fraternidades onde o cara passa por uma coleção inimaginável de humilhações apenas com o inacreditável intuito de ser aceito em uma fraternidade de babacas. Não é muito diferente das merdas dos trotes universitários brasileiros. Babaca não respeita geografia.

Fico imaginando o que leva uma pessoa a essa necessidade doentia de ser aceito. E com o tempo me parece que em busca de aceitação as pessoas têm se padronizado de maneira assustadora e alarmante.

Hoje em dia a rapaziada usa piercing, tatuagem (não que eu tenha exatamente nada contra o uso de piercings ou tatuagens, mas é que parece que grande parte da molecada começa a usar apenas numas de copiar outra pessoa e aí é esquisito), o mesmo corte de cabelo, gosta das mesmas músicas e das mesmas roupas e emprega as mesmas expressões ("Galera", "é dez", "é show", "baladinha" e outras que eu não consigo sequer repetir aqui sem ter o meu estômago revirado) e aí ele se sente parte de alguma coisa, é compreendido e aceito e não vira motivo de zombaria entre os demais, justamente por não ser diferente.


Então o que acontece é muito simples. Se o sujeito tá num grupo onde o lance é odiar alguém, seja quem for, pode ser negro, viado, gordo, mulher ou o Mico-Leão Dourado, então o cara vai passar a odiar, ele nem sabe o motivo, é que a turma odeia e ponto. E se a turma pinta o cabelo de azul, então o panaca pinta também. E se a turma acha que é legal praticar artes marciais pra sair dando porrada em desavisados noturnos, então o cara automaticamente se inscreve numa academia e sai de lá o “mó Steven Seagal”.

E acha legal sair de carro com uma piranha oxigenada (esses caras sempre andam com piranhas descerebradas que são apreciadoras de bravatas intimidatórias) e provocar o primeiro sujeito pacífico que eles cruzarem pela frente. E vai ser providencial se eles pegarem pela frente um carinha com um livro do Kafka no ponto de ônibus. Esses caras nutrem um profundo ódio por qualquer sujeito que consiga articular mais que duas frases inteligíveis. E as suas piranhas são as primeiras a aplaudir o massacre.

Não estou aqui querendo de maneira nenhuma desmerecer o trabalho de alguns professores de artes marciais que sei o quanto são sérios e dignos. Mas é que sem a devida orientação eles estão criando um exército de babacas extremamente perigosos.

E é claro que a mídia e a publicidade incentivam irresponsavelmente esse estilo de vida. Elas querem todo mundo comprando e consumindo as mesmas coisas, coisas essa que eles fabricam em larga escala para atender a demanda desenfreada.

Numa novelinha como Malhação, só pra citar um exemplo bastante óbvio, a impressão que fica é que o roteirista escreveu um monólogo e depois distribuiu as falas entre vários personagens. Não há diferenciação de personalidade. Todos falam as mesmas coisas, do mesmo jeito e usando as mesmas expressões. Em resumo: fique igual e permaneça legal.

Há um processo de idiotização total e irrestrita avançando a passos largos. E essa busca pela padronização e no conseqüente status mediano (estou sendo generoso com esse "mediano") que as pessoas têm alcançado ganhou por esses dias duas novas forças de “responsa”.

A MTV “onde é que estão os clipes, porra?” Estreou dois programas que são verdadeiras aberrações. O primeiro deles é o tal Missão MTV onde a Modelo Fernanda Tavares totalmente destituída de qualquer coisa que possa ser chamada de carisma, apesar de bonitinha (é o mínimo que se pode esperar de uma modelo) é chamada para padronizar qualquer sujeito que não esteja seguindo as regrinhas do que eles chamam de "bom gosto". Então se uma garota não fizer o gênero patricinha afetada, então ela automaticamente está out e a missão da Fernanda é introduzir a "rebelde" ao mundo dos iguais.


E dá-lhe o que eles chamam de "banho de loja". Se o cara usa roupas largas e o cabelo sem uma preocupação fashion e ainda se diz roqueiro, então eles transformam o coitado num metrosexual glitter afetado e por aí vai. Parece que a mulher vai dar um jeito no quarto de um sujeito. Ela diz que tá tudo errado no quarto do cara. Como assim? É o quarto dele, porra. Enfim, é proibido ter estilo. Quem não se enquadra, sai de cena. Em resumo, um programa vergonhoso.

Mas o pior ainda é o outro: O inacreditável e assustador Famous Face. Sacou qual é a desse? Uma maluca encasqueta que quer ficar parecida com a Jeniffer Lopez ou com a Britney Spears e tal estultice é incentivada. Em resumo, a transformação é filmada e testemunhamos a verdadeira frankesteinização sofrida pela pobre iludida. Ela se submete à operação plástica, lipoaspiração e o caralho. Chega a ser nojento. Eu não entendo qual é a de um programa como esse. Será que a indústria da cirurgia plástica tá precisando de uma forcinha? Eu duvido. Nunca vi se falar tanto em botox, silicone, lipo e outras merdas. Todo mundo tentando evitar o inevitável. Todo mundo querendo retardar o tempo incontrastável. Vivemos cada vez mais em uma gigantesca e apavorante Ilha do Dr. Mureau. Foda-se Dorian Gray. Eu sou bem mais as rugas de Hemingway.

A América de John Steinbeck

Desde a década de 1960, impera no mundo um sentimento feroz contra os Estados Unidos. Esse antiamericanismo culminou no atentado ao World Trade Center em 2001, e só aumentou desde então. Nem sempre foi assim. Por um longo período, do início da década de 1920 até o final da de 1950, aproximadamente, os norte-americanos estiveram com moral elevada no cenário internacional. Nesse período triunfaram em duas Guerras Mundiais (de forma financeira na primeira e bélica na segunda), aproveitaram a prosperidade da Era do Jazz, souberam se reerguer depois da dura depressão dos anos 30, fruto da quebra da bolsa de Nova York em 1929. O american way of life parecia o modo ideal de se viver.

Foi também um momento glorioso para as artes nos Estados Unidos. Em todas as áreas surgiram obras que até hoje permanecem clássicas. Foi a época áurea dos estúdios de Hollywood e de cineastas como John Ford, Howard Hawks, George Cukor, Nicholas Ray e George Stevens (além dos estrangeiros radicados e americanos por associação Frank Capra, Billy Wilder, Alfred Hitchcock e Elia Kazan). A música popular encontrou seu auge nos grandes compositores (Cole Porter, Irving Berlin, Johnny Mercer, os irmãos George e Ira Gershwin) e intérpretes (Louis Armstrong, Billie Holiday, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald). O teatro ganhou seu triunvirato definitivo (Eugene O’Neill, Tennessee Williams e Arthur Miller).

Mas nenhuma área cultural foi tão beneficiada quanto a literatura. Depois de muito tempo baseando-se no que se fazia na Europa, as letras americanas ganharam cara no século 19, através de Edgar Allan Poe, Henry James, Nathaniel Hawthorne, Mark Twain, Herman Melville e Walt Whitman, para explodir de vez na primeira metade do século 20. A lista, interminável, está cheia de autores de talento: F. Scott Fitzgerald, William Faulkner, Ernest Hemingway, John Cheever, J.D. Salinger, Sinclair Lewis, John O’Hara.

Um dos principais autores do período e, sem dúvida, o mais americano de todos eles, foi John Steinbeck (1902-1968). Vencedor do Prêmio Nobel em 1962, Steinbeck tornou-se célebre por sua literatura de teor social e pela delicadeza com que tratou temas complicados, como a pobreza durante a depressão. Em particular com As Vinhas da Ira, que narra a saga da família Joad em busca de um emprego na Califórnia, e o ainda melhor A Leste do Éden. Porém, quem conhece pouco da carreira de John Steinbeck vai se surpreender ao bater os olhos em A América e os Americanos e ensaios relacionados (Editora Record, 489 páginas). A obra foi a última lançada em vida por ele, dois anos antes de sua morte. Compreende trinta anos de sua pouco conhecida não-ficção, de 1936 a 1966 (65 textos, no total). O livro aborda uma gama de assuntos: sócio-políticos, pinceladas reflexivas sobre a Depressão, detalhes de sua infância na Califórnia, diário de viagens, opiniões sobre sua obra e, como promete o título, digressões sobre vários aspectos da América e dos cidadãos americanos.

O livro está dividido em oito partes: “Lugares do Coração”, “Artista Engajado”, “Textos Avulsos”, “Sobre a Escrita”, “Amigos”, “Jornalista no Exterior”, “Correspondente de Guerra” e “A América e os Americanos”. Os títulos dos tópicos são bem auto-explicativos. No primeiro, o escritor fala de cidades em que morou ou que guardava com carinho. Fala sobre São Francisco, onde cursou faculdade e viveu de modo hippie quatro décadas antes dos anos sessenta, sobre Nova York (“a única cidade grande em que morei”) e Sag Harbor, pequena vila próxima a NY. O período da Depressão, essencial em sua vida e obra, é radiografado em “Uma Cartilha Sobre os Anos 30”.

Já “Artista Engajado” traz a vertente politizada de Steinbeck. Na época o consideravam um esquerdista, mas quem analisa sua obra com algum afinco percebe que isso não confere. O escritor vivia em um limbo ideológico: era conservador demais para a esquerda e liberal demais para a direita. Era um democrata informal (amigo de Roosevelt, Lyndon Johnson e Adlai Stevenson) e odiava o comunismo, mas não gostava de rotulações: “Simplesmente não me associo por natureza. Fora os Escoteiros e o Coro Episcopal, nunca senti impulsos de me associar às coisas”.

Sua ambigüidade política gerava inimizades. Os comunistas o detestavam, e Steinbeck dá exemplos disso em “Duelos Sem Pistolas”, onde fala da viagem que fez com a esposa para Roma (onde os escritores são levados a sério e recebem o mesmo respeito que as pernas de Lana Turner nos EUA, diz) e foi recebido com uma feroz “Carta Aberta a John Steinbeck”, escrita por esquerdistas que o consideravam um traidor. Por outro lado, sua luta pelos direitos se faz notar em “O Julgamento de Arthur Miller”, em que defende a liberdade de expressão, e em “Ataque Vale”, uma crítica ao racismo da sociedade norte-americana. Sua ânsia democrata é ainda mais notável no hilário “Delegados Republicanos têm Insígnias Maiores e Melhores”.

Em “Textos Avulsos” há de tudo: esporte (“Então Meu Braço Endureceu”), pescaria (“Sobre a Pesca”), carros (“Um Modelo T Chamado ‘Isso’”), vaga-lumes (“...como vaga-lumes capturados”) e cachorros (“Pensamentos a esmo sobre cães a esmo”), um tema que muito lhe foi caro (o mais famoso foi Charlie, que ganhou um romance inteiro).

O capítulo seguinte, “Sobre a Escrita”, é o mais saboroso para os fãs. Lá, ele fala do que lhe dá prazer, seu combustível: a escrita, claro. “Sinto-me bem quando faço isso – melhor do que quando não faço. Encontro alegria na textura, no tom, nos ritmos das palavras e frases”, diz em “Embasamento”. E continua: “Escrever, para mim, é uma função profundamente pessoal, secreta mesmo, e quando o produto é liberado ele separa-se de mim e não tenho mais sensação de que é meu. É como uma mulher tentando recordar como é o parto. Ela não consegue”. Conforme seu amigo Nathaniel Benchley relatou à revista The Paris Review, Steinbeck acreditava que, para escrever bem, a pessoa deve amar ou odiar muito o objeto do texto. “Isso é um espelho da personalidade do John. Era branco ou preto, e, apesar de ele mudar de opinião às vezes, se você estava do seu lado, você estava certo, e se não estivesse, estava completamente errado”.

Steinbeck surpreende ao afirmar que considera Ratos e Homens, uma de suas obras fundamentais, um fracasso. Não pela qualidade, mas pelas ambições técnicas que previa para o livro: sua intenção era criar uma peça-novela, um texto escrito em formato de romance, mas com pouca descrição e profusão de diálogos, o que favoreceria a adaptação ao palco sem perda de conteúdo e, ao mesmo tempo, fugiria da leitura sem tanta fluidez das peças. John acreditava que não alcançara esse equilíbrio: “Não servia para ser encenado porque eu não tinha experiência e conhecimento suficiente da arte do palco. O ritmo estava errado, a hora do pano foi mal escolhida, algumas cenas passaram do limite e muitos métodos comumente usados no romance e que empreguei no livro não ficaram claros no palco”.

O escritor ainda aproveita para alfinetar os críticos, que passaram a criticar a sua obra a partir de As Vinhas da Ira. Outro artigo é uma exaltação do objeto livro, “uma das pouquíssimas mágicas autênticas que nossa espécie criou”. Steinbeck era entusiasta do pocket, vendido a 25 centavos: “Com as edições baratas (...) você enche de livros os braços dos amigos. Diz: quando acabar de lê-los, passe adiante. Isso é uma coisa maravilhosa”.

“Amigos” traz perfis de amigos próximos a Steinbeck. A maioria celebridades: o fotógrafo Robert Capa (“o trabalho de Capa é a imagem de um grande coração e de uma compaixão avassaladora”), companheiro de reportagens de John, o político Adlai Stevenson, o ator Henry Fonda (“seu rosto é um retrato de opostos em conflito”), o músico folk Woody Guthrie (que compôs várias músicas baseadas em As Vinhas da Ira), entre outros. Contudo, é uma não-celebridade que ganha o texto mais tocante de A América e os Americanos: Ed Ricketts, amigo dos tempos de Monterey.

Os dois tópicos seguintes mostram a persona repórter do autor. Sua visão do jornalismo é dividida: “tem a maior das virtudes e o maior dos males. É a primeira coisa que o ditador controla. É pai da literatura e perpetrador de lixo. Em muitos casos é uma única história que temos, embora seja a ferramenta dos piores homens. Mas num período longo, e talvez por ser produto de tanta gente, é a coisa mais pura que temos”. Lembra da valorização do jornalismo na literatura americana: “Na Europa, um jornalista é visto como um escritor de segunda ou terceira classe. Jornalista, para um aspirante europeu às belles-lettres, é um palavrão. Nos Estados Unidos, pelo contrário, o jornalista é não só uma profissão respeitada como também considerado o campo de treino de qualquer bom autor americano”.

Como repórter, é incomum. Quando narra seu curto período na profissão, pouco depois de chegar à Nova York, John diz que levava horas tentando voltar dos lugares onde cobria pautas; não conseguia aprender a roubar fotos das mesas de famílias que se recusavam a ser retratadas, além de ficar emocionalmente envolvido nos casos. É essa inaptidão que faz sua não-ficção sedutora. Ele é um grande observador, alguém que se compromete até o cerne com o assunto. Inadequado para o serviço jornalístico diário, factual e mecânico, e ideal para o jornalismo ensaístico e de opinião. O capítulo “Jornalista no Exterior” coleta artigos sobre países europeus. Três sobre a França, dois sobre a Itália e dois, os melhores, sobre a Irlanda.

Steinbeck cobriu duas guerras: a Segunda Guerra Mundial e a do Vietnã. Na primeira, sofreu resistência dos outros correspondentes, por ser um romancista famoso. Sentiu-se “retardatário, uma vaca sagrada, um tipo de turista”. Seu diferencial era o ponto de vista particular. Os textos não se resumem ao front: Steinbeck fala do dia-a-dia dos soldados e de situações de dentro do exército (a visita do comediante Bob Hope ao quartel, o cachorro que espera os aviões). Com ao Vietnã a ligação era profunda. Admirador do presidente Johnson, Steinbeck era a favor da guerra, assim como outros escritores (John Updike, Vladimir Nabokov, John dos Passos), e foi desancado por isso. Não entendia os protestos antiguerra e resolveu ir ao Vietnã espiar a situação de perto. Voltou horrorizado.

O oitavo e último tópico do livro, o próprio “A América e os Americanos”, é a peça de resistência da obra. Ali, estão concentradas as mais densas e profundas análises. Apesar de sua paixão pelos Estados Unidos – ou talvez por isso –, Steinbeck não se limita a passar a mão na cabeça de seus conterrâneos; não, o escritor critica tanto quanto elogia. Classifica o país e seu povo como “complicados, paradoxais, cabeças-duras, tímidos, cruéis, fanfarrões, indizivelmente queridos e belíssimos”. Lista, assim, as infindáveis contradições que compõem a América e os americanos, uma sociedade que critica com dureza seu governo, mas acredita que é o modelo ideal, uma sociedade agressiva e indefesa, autoconfiante e dependente, hospitaleira e insensível, “uma nação de puritanos públicos e devassos privados”.

Steinbeck é um escritor norte-americano em essência. O país e suas particularidades transbordam em suas frases – a forte identificação é comparável com a de nomes anteriores (Twain) e posteriores (Updike) a ele. Ao mesmo tempo em que é mordaz e impiedoso nas críticas, derrama ternura pela sua terra. Ressalta as qualidades e defeitos de um país que é cada vez mais criticado. Seria interessante ver como o escritor se comportaria em relação ao antiamericanismo atual.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Como Entender Jack Kerouac?

Jean Louis Lebris de Kerouac viveu 47 anos. Morreu em 1969, depois de escrever 23 livros. Apesar de católico fervoroso, educado em colégio jesuíta, tímido e introspectivo, generoso e angelical, até os seis anos só falava o 'joual', um dialeto franco-canadense. Entre 9 e 27 de abril de 1951, escreveu a primeira versão de um livro famoso: 'On the road', conhecido também por 'Pé na Estrada'. Publicado seis anos depois, o livro se tornou um mito, a 'Bíblia da Geração Beat'. Jack tentou inúmeras vezes explicar o termo beat. Dava voltas e voltas para a irritação dos jornalistas, críticos e entrevistadores. A dificuldade de explicar o que era beat esbarrava em duas circunstâncias: Jack era francês e adorava as vogais - numa terra repleta de consoantes; seu beat, por outro lado, tinha correlações com o ritmo musical, o sentido de uma batida ou golpe, uma exaustação de fundo de poço, uma excitação de batidas de coração, cadência de verso, trajeto, trilha, furo jornalístico, pilantragem e até mesmo o 'beat the way', o 'botar o pé na estrada', muito usado por outro Jack, o London.

Disse certa vez que não conhecia nenhum hippie; dizia que era um católico místico e louco, flertava com o zen budismo e os peregrinos religiosos, como São João da Cruz e Santa Teresa. Bob Dylan decidiu fugir de casa após a leitura de 'On the road' - e como o filho, Jakob Dylan, posou ao lado do túmulo de Jack, num espaço de vinte anos. Nas crônicas de Dylan, há a confissão de que também nada tinha a ver com o movimento hippie. Quando se refugiou em seu rancho, Dylan tinha vontade de atirar naquele bando de cabeludos folgados que peregrinavam até sua casa. Tanto Dylan como Kerouac atingiram o reconhecimento após uma crítica do NY Times. Já a revista Time, acusou o livro de Kerouac de incitar a explosão de vadiagem em violência de jovens, que, de uma hora para outra, em todos os cantos dos EUA, agrupavam-se em bares, em torno de jukeboxes, pilantragem e drogas, para fazer arruaças nas madrugadas.

Para entender Kerouac e os beats é preciso estar atento à 'beatitude', ou seja, a atitude de um beato frente à vida. Sua veia literária não é nova, pois segue uma visão do divino na natureza e na saga dos homens em busca da terra prometida. No caso americano, de Nova Iorque para São Francisco e Los Angeles, através de uma linha vermelha conhecida por Rota 6 - que se une à Rota 66 e pode se transformar, simbolicamente, na 'Rota 666'. Foi o que aconteceu com Jack: seguindo a rota do sol poente, influenciado por Walt Whitman, Thomas Wolfe e William Saroyan (enquanto a América ainda estava sob a influência do ritmo seco e telegráfico de Ernest Hemingway), Kerouac terminou seus dias vivendo na casa da mãe, bêbado, cada vez mais reacionário, barrigudo, afastado de seus companheiros e odiando cada cabeludo americano dos anos 60. Abandonou o roteiro em seus livros e passou - graças aos seus experimentos anteriores com maconha, mescalina, peiote e LSD - a escrever quase automaticamente, com fluxos de consciência, mesclados às descrições detalhistas de paisagens da América suburbana. Chegou a votar em Richard Nixon e romper com seus ex-companheiros beats, tratando-os por 'comunistas'. No fim da vida passou horas, anos, na frente da tv, assistindo programas de auditório. Se há um caráter universal em sua obra, este só pode ser a busca do 'Leste da minha juventude para o Oeste do meu futuro'. Mais ou menos como a humanidade fez com o Oriente ancestral para o jovem e transgressor Ocidente. Como fizeram os pioneiros americanos da Rota 6, com carroções e esperanças. Jack com um Cadillac roubado ou no dedão da carona. A história do livro 'On the road' no Brasil, até 1984, consistia numa edição portuguesa onde se podia encontrar frases como: 'Fui-me de boléia ao Orégão num carro descapotável'. Depois de 1984, o tradutor Eduardo Bueno (o 'Peninha', que atualmente faz a história do Brasil no Fantástico), explicou que alguém pode ir de carona num conversível - mas não propriamente no Oregon, porque lá chove muito. Naquele ano, 1984, 'On the road' ficou 22 semanas na lista dos mais vendidos. Não exatamente em primeiro lugar, porque Umberto Eco lançara 'O Nome da Rosa', no mesmo ano. Ao todo, 'Pé na estrada' (um título anexo, exigido pela Editora), vendeu 100 mil exemplares no Brasil. Antes tarde que nunca: as tortas de maçã 'estavam ficando cada vez melhores, à medida que eu avançava', disse Kerouac, no meio de tudo.

Professor Acima de suspeitas

“Não dá para aceitar que professores arrogantemente coloquem apenas no aluno responsabilidade pelo fracasso escolar” Mario Sergio Cortella

Existem grandes e sérios problemas na educação no nosso país, no campo público ou privado. De quem é a culpa? Não é incomum encontrarmos gente entre nós que diz tranqüilamente: dos alunos. Justificamos, com freqüência, as nossas eventuais incompetências acusando os alunos. Aliás, no nosso país ainda são usuais muitos atribuírem a responsabilidade do fracasso escolar ao aluno. Seria a mesma coisa que na área hospitalar atribuir o fracasso aos pacientes. Já viu quando, ao sair de alguma turma, um professor entra na nossa sala e diz assim: "Aquela turma lá, dos 40 alunos, 20 vão ficar, para eles verem o que é bom." Já imaginou que loucura alguém que avalia a qualidade do que faz pelo fracasso que obtém? Já imaginou isso na sala de descanso dos médicos em um hospital qualquer, eles conversando "aqueles pacientes lá da UTI, dos 20, 10 vão morrer, eles vão ver o que é bom"?Quantas vezes algum colega nosso vira e diz que "os alunos de hoje não são mais os mesmos"? Aliás, trata-se de uma informação absolutamente óbvia – alguém que diz uma coisa dessas está demonstrando pelo menos um mínimo de sanidade.

Distúrbio de fato é alguém que diz isso e continua dando aula do mesmo jeito que dava há dez anos, ou há 20 anos, porque se o professor sabe que os alunos não são os mesmos como é que continua fazendo do mesmo jeito? Vez ou outra obscurece as nossas dificuldades, até fingindo uma competência exemplar, mas há muita fragilidade a corrigir. A questão é que nem sempre isso vem à tona, pois a nossa atividade avalia muito, mas é pouco avaliada; nossos equívocos demoram um pouquinho para aparecer. Aliás, não apreciamos muita a prática de nos avaliarem. Não gostamos nem que olhem pela janelinha de vidro que existe em muitas portas de salas de aula nas quais trabalhamos. Há pessoas que, por exemplo, quando a comunidade começa a legitimamente opinar na escola, ficam irritadas e reagem com o clássico "esse povo não entende nada de educação e fica aí palpitando". Pode-se argumentar que há exagero nessa constatação, mas basta observar amiúde a sala dos professores na hora do intervalo e prestar atenção a algumas das nossas conversas. Está lá, digamos, o professor de uma disciplina qualquer da 7a série que diz assim "esses alunos vêm da 6a série sem saber nada, eles não têm base nenhuma". Na mesma sala está o professor de 6a série que fala "você precisa ver como é que eles vieram da 5a"; grita lá do fundo uma professora da 5a "imaginem como eu os recebi vindo da 4a" e vai-se recuando quase até a vida intra-uterina da criança para achar a responsabilidade. Tem gente que acha que educação é o crime perfeito: só tem vítima, não tem autor. Não é verdade.

Malandro é Malandro e Mané é Mané

Zeca Pagodinho é um intérprete e compositor que canta e encanta na medida em que o seu estilo e suas canções, ao atuarem sobre o imaginário coletivo, possibilitam a reconstrução e o reviver da nostalgia do Rio Antigo, nas primeiras décadas do século XX, ocasião na qual o malandro – enquanto “personagem” - é uma figura típica. Zeca nos remete ao tempo em que o malandro que lesava o “otário” ou o fazia com bons argumentos, contando com a distração daquele ou no máximo com o uso de uma navalha.

A figura-tipo vivenciada por Zeca Pagodinho é a do bom malandro. Ele nos recorda o malandro que só usa a lábia para conseguir sobreviver, que “leva vantagem” sem precisar apelar para arma branca ou qualquer forma de violência física, mas que ao mesmo tempo tem compaixão pelo sofrimento alheio. A identidade social que constrói é a do malandro que ganha do otário, porque otário existe pra dar boa vida para malandro. Na ética da malandragem a culpa não é do malandro, mas do otário que deu mole. Quem mandou ser otário?

No Brasil da pessoalidade e da sensualidade é que o tipo Zeca Pagodinho se criou. Zeca tem a cordialidade que nos caracteriza. Tem a ginga brasileira. E, por isso, o público se identifica com ele, se encanta com ele. Foi a ética do malandro carioca vivida pelo artista Zeca Pagodinho, com imenso talento, que o transformou no símbolo que é. Suas músicas retratam a boemia, a sedução, a conversa mole do malandro para “ganhar” a mulher desejada ou ainda a superioridade do esperto diante do “mané".

E foi pela credibilidade obtida pela imagem que Zeca Pagodinho construiu que uma marca de cerveja o contratou. O “verdadeiro” malandro é alguém capaz de dar o aval a uma marca de cerveja, ajudando-a a torná-la mais vendável. Ao contrário, quem quer fazer seu comercial voltado para conquistar um público tradicional, procura contratar um homem que desfruta do prestígio de ser metódico e disciplinado como, por exemplo, um pastor protestante. O malandro encanta porque nos remete ao mundo lúdico da felicidade. O malandro não tem compromisso, mesmo quando é visto experimentando, jura que não é mais disso, que não perde uma noite à toa e que não trai e nem troca sua patroa.

Dentro deste contexto o malandro experimentou. O malandro “vestiu uma camisa listrada e saiu por aí” (1). Mas, malandro que é malandro, pode ter um amor de verão ou de carnaval, mas pede perdão e volta pra casa arrependido. Este é o contexto da malandragem. É para o arrependimento que existe a quarta-feira de cinzas e toda a quaresma para a penitência.

Mas a publicidade se destina ao consumidor e trata de imaginário. Diversamente do contrato celebrado entre as partes envolvidas (empresa, publicitários, garoto-propaganda). A ética do Direito, regente das relações contratuais, é diferente da ética do malandro.

No Direito não há amor de verão nem de carnaval. O que existe é cumprimento ou descumprimento de contrato. Não há quarta-feira de cinzas para o arrependimento, mas responsabilidade pelos danos causados em decorrência do descumprimento do dever contratual. Não há quaresma para a penitência, mas dever de reparação.

A ética do contrato é a ética do capitalismo. Vigie o princípio e o rigor da forma. Vale o que está escrito. Se o “malandro” manifestou a vontade, pela colocação de sua assinatura no contrato, não há como querer reviver o amor antigo. Está vinculado, por prazo certo, ao dever de não se referir ao antigo amor.

A ética da publicidade, que busca por processos emocionais a intromissão no imaginário, se revela incompatível com a racionalidade da ética do Direito no qual foi estabelecida. Na publicidade o personagem se confunde com a pessoa, mas dela tem que viver separada.

A ética do contrato de publicidade é a ética do capitalismo, onde o profissional não se confunde com o profissional contratado; o jurista não se confunde com o advogado; o jornalista não se confunde com o profissional do jornalismo; o bebedor de uma antiga cerveja, que dá dor de cabeça, não se confunde com o propagandista de uma nova cerveja, que mudou sua fórmula. Mesmo que sejam no real a mesma pessoa. Isto porque, como atores sociais, representam diferentes papéis.

Um notável médico-cirurgião, que não paga impostos, pode continuar a ser um notável profissional. Um Juiz de Direito que tenha igual comportamento, por mais qualificado que seja, não deveria exercer a judicatura. Porque há funções nas quais, mais do que a preparação se exige ética para seu desempenho. De um boêmio a ética que se exige é que seja boêmio. Se mudar perde a morena.

A contratação da capacidade trabalho, por tempo certo, sem que o trabalhador saiba o que vai fazer, implica hoje, também, na possibilidade de contratação da opinião, igualmente, por tempo certo.

Mas, como querer que o malandro se comporte como um pastor protestante, ou ainda, de acordo com a ética do capitalismo? Se fosse e pensasse como um pastor protestante ele seria contratado para alavancar a venda da cerveja? Que público a cervejaria queria conquistar: um público composto por exemplares donos e donas de casa, cumpridores de suas obrigações contratuais, ou um público boêmio? Como querer julgar o malandro por ele ser aquilo que o levou a ser contratado?
O mundo real foi absorvido pelo imaginário. O real é um vírus que ataca o virtual, tal como no filme Matrix.


O malandro foi pego na armadilha da sociedade do espetáculo; no paradoxo na contemporaneidade. É celebridade porque é malandro. Mas, porque é malandro querem condená-lo a deixar de ser célebre.

Zeca, bem vindo ao deserto do real.

Nota:

1 – Verso da música Camisa Listrada, de Assis Valente. “Vestiu uma camisa listrada e saiu por ai / Em vez de tomar chá com torradas / Ele bebeu parati”. O samba se tornou conhecido através da gravação feita por Carmem Miranda, no selo Odeon, em 1937. (MPB/14: 1970apa).

Bibliografia:

Música Popular Brasileira n. 14. Assis Valente. Abril Cultural, 1970.

WEBER, Max. A ética protestante o espírito do capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2002.

A Cegueira

No filme "O homem dos olhos de raios-x", filme B antigo que vi na infância e nunca esqueci, o personagem de Ray Milland descobria uma substância científica (leia-se poção mágica) que ampliava a visão. Experimenta em um pequeno macaco, que enlouquece e morre. Torna-se ele próprio cobaia, e sua visão vai aos poucos atravessando progressivas camadas da realidade. Ao prazer de ver através das roupas femininas se segue a angústia de enxergar apenas esqueletos, depois sequer isto. Ao final do filme, entra cambaleando em uma igreja onde um daqueles pastores americanos típicos prega, e este lhe pergunta o que vê. A resposta: meu olho passa através de tudo, não é parado por nada, até o centro de tudo... e ali está o nada mais terrível. O personagem não quer ver o que vê. O pregador e sua congregação insistem biblicamente: se teu olho te ofende, arranca-o. Ray Milland abaixa a cabeça, e ao levanta-la, na última imagem do filme, o sangue corre de suas órbitas como lágrimas.

Assim como o ver demais anula a visão, a cegueira também pode ser entendida como uma visão a mais, como um mais-de-ver, perigoso, enlouquecedor, tentador e edípico. A pupila do olho é um buraco negro que espelha outra escuridão, aquela de onde viemos, e que nos é proibido devassar mas que fascina. O buraco do nascimento, a partir do qual surgimos para a luz, e o buraco pelo qual esta luz penetra são homólogos em algum ponto do imaginário. Há imagens, como em Ernesto Sábato, da vagina como um olho a ser perfurado, e dos cegos como uma confraria envolta em conspirações maléficas, aqueles a quem é dado acesso à visão do inferno. O terror do mais-de-ver da cegueira faz perfeito sentido. Se quando estamos cegos vemos no inconsciente, o que há para se ver aí?

Sobre Heroes y tumbas

Si fuera un poco más necio podría acaso jactarme de haber confirmado con esas investigaiones la hipótesis que desde muchacho imaginé sobre el mundo de los ciegos, ya que fueron las pesadillas y alucinaciones de mi infancia las que me trajeron la primera revelación. Luego, a medida que fui creciendo, fue acentuándose mi prevención contra esos usurpadores, especie de chantajistas morales que, cosa natural, abundan en los subterráneos, por esa condición que los emparenta con los animales de sangre fría y piel resbaladiza que habitan en cuevas, cavernas, sótanos, viejos pasadizos, caños de desagües, alcantarillas, pozos ciegos, grietas profundas, minas abandonadas con silenciosas filtraciones de agua; y algunos, los más poderosos, en enormes cuevas subterráneas, a veces a centerares de metros de profundidad, como se puede deducir de informes equívocos y reticentes de espeleólogos y buscadores de tesoros; lo suficiente claros, sin embargo, para quienes conocen las amenazas que pesan sobre los que intentan violar el gran secreto

100 Filmes Especiais

01. Cidadão Kane (1941), de Orson Welles
02. O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola
03. Sindicato de Ladrões (1954), de Elia Kazan
04. Um Corpo Que Cai (1958), Alfred Hitchcock
05. Casablanca (1942), de Michael Curtiz
06. Oito e Meio (1963), de Federico Fellini
07. Lawrence da Arábia (1965), de David Lean
08. A Regra do Jogo (1939), de Jean Renoir
09. O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein
10. Rastros de Ódio (1956), de John Ford
11. Cantando na Chuva (1956), de Gene Kelly e Stanley Donen
12. Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder
13. Persona (1966), de Ingmar Bergman
14. O Mensageiro do Diabo (1955), de Charles Laughton
15. 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick
16. Os Sete Samurais (1954), de Akira Kurosawa
17. O Leopardo (1963), de Luchino Visconti
18. Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese
19. Era uma Vez em Tóquio (1953), de Yasujiro Ozu
20. Fitzcarraldo (1982), de Werner Herzog
21. Acossado (1959), de Jean-Luc Godard
22. Jules e Jim (1962), de François Truffaut
23. O Conformista (1970), de Bernardo Bertolucci
24. Em Busca do Ouro (1925), de Charles Chaplin
25. Metrópolis (1926), de Fritz Lang
26. O Sétimo Selo (1956), de Ingmar Bergman
27. A Aventura (1960), de Michelangelo Antonioni
28. Amarcord (1973), de Federico Fellini
29. Viridiana (1961), de Luis Buñuel
30. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), de Woody Allen
31. O Nascimento de uma Nação (1915), de D. W. Griffith
32. Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola
33. Era uma Vez no Oeste (1968), de Sérgio Leone
34. Assim Caminha a Humanidade (1956), de George Stevens
35. Psicose (1960), de Alfred Hitchcock
36. O Martírio de Joana D’Arc (1928)
37. Touro Indomável (1980), de Martin Scorsese
38. Olympia (1938), de Leni Riefenstahl
39. O Falcão Maltês (1941), de John Huston
40. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha
41. Dr. Fantástico (1964), de Stanley Kubrick
42. Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini
43. A Doce Vida (1960), de Federico Fellini
44. Chinatown (1974), de Roman Polanski
45. A Felicidade Não se Compra (1946), de Frank Capra
46. …E o Vento Levou (1939), de Victor Fleming
47. Tempos Modernos (1936), de Charles Chaplin
48. A Um Passo da Eternidade (1953), de Fred Zinnermann
49. O Sacrifício (1986), de Andrei Tartovski
50. Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick
51. A General (1927), de Buster Keaton
52. O Homem Elefante (1980), de David Lynch
53. O Mágico de Oz (1939), de Victor Fleming
54. Querelle (1982), de Rainer Werner Fassbinder
55. A Primeira Noite de um Homem (1967), de Mike Nichols
56. Morte em Veneza (1971), de Luchino Visconti
57. A Última Sessão de Cinema (1971), de Peter Bogdanovich
58. Os Bons Companheiros (1990), de Martin Scorsese
59. Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982), de Ridley Scott
60. A Malvada (1950), de Joseph L. Mankiewicz61. Nosferatu (1922), de Friedrich W. Murnau
62. O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci
63. Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio de Sica
64. Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders
65. Pulp Fiction – Tempo de Violência (1994), de Quentin Tarantino
66. Repulsa ao Sexo (1965), de Roman Polanski
67. Crimes e Pecados (1989), de Woody Allen
68. Uma Rua Chamada Pecado (1951), de Elia Kazan
69. Butch Cassidy e Sundance Kid (1969), de George Roy Hill
70. Os Imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood
71. Patton – Rebelde ou Herói? (1969), de Franklin J. Schaffner
72. Tudo Sobre Minha Mãe (1999), de Pedro Almodóvar
73. Um Lugar ao Sol (1951), de George Stevens
74. Um Estranho no Ninho (1975), de Milos Forman
75. Amor à Flor da Pele (2000), de Wong Kar-Wai
76. Hiroshima, Meu Amor (1959), de Alain Resnais
77. Kaos (1984), de Irmaõs Taviani
78. Brazil, O Filme (1985), de Terry Gilliam
79. Quanto Mais Quente Melhor (1956), de Billy Wilder
80. Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles
81. Os Homens Preferem as Loiras (1953), de Howard Hanks
82. Um Cão Andaluz (1928), Luis Buñuel
83. Los Angeles – Cidade Proibida (1997), de Curtis Hanson
84. Pixote – A Lei do Mais Fraco (1981), de Hector Babenco
85. Ben-Hur (1959), de William Wyler86. Fantasia (1940), de Walt Disney
87. Sem Destino (1969), de Dennis Hopper e Peter Fonda
88. Dogville (2003), de Lars Von Trier
89. O Império dos Sentidos (1976), de Nagisa Oshima
90. Um Convidado Bem Trapalhão (1968), de Blake Edwards
91. A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg
92. Guerra nas Estrelas (1977), de George Lucas93. O Pântano (2000), de Lucrecia Martel
94. Cabaré (1972), de Bob Fosse
95. Operação França (1971), de William Friedkin
96. King Kong (1933), de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack
97. As Invasões Bárbaras (2003), de Denys Arcand
98. Fargo (1996), de Joel e Ethan Cohen
99. M.A.S.H. (1970), de Robert Altman
100. Lavoura Arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Lembranças...

A biblioteca era o lugar mais deprimente que eu freqüentava. Tinha ficado sem livros para ler. Depois de um tempo, eu pegava um livro grosso e ficava olhando para uma garota jovem nas proximidades. Sempre havia uma ou duas delas. Sentava-me a uma distância de três ou quatro cadeiras, fingindo ler o livro, tentando parecer inteligente, esperando que alguma garota me notasse. Eu sabia que era feio, mas achava que se parecesse suficientemente inteligente talvez tivesse uma chance. Nunca funcionou. As garotas apenas faziam notas em seus cadernos e então se erguiam e iam embora enquanto eu olhava seus corpos se moverem de maneira ritmada e mágica debaixo de seus vestidos limpos. O que Máximo Górki teria feito sob essas circunstâncias?