Coleciono rancores. Desejos coisas ruins, Cuspo na maioria dos pratos que já mataram minha fome. Gosto da Inveja, da cobiça, de planos mirabolantes para destruir o que precisa ser derrubado. As peças inúteis que obstruem caminhos no tabuleiro onde sobrevivo. Eu: acho o amargo o melhor que o doce. A vingança mais sábia do o perdão. O Olho por olho mais justo do que a inocência ridícula da compaixão. Eu falo trás esquentando orelhas. Beijos faces indigestas com a doçura de Judas. Escondo raiva atrás dos silêncios, o ódio debaixo dos sorrisos. As facas afiadas nas mãos de trás. Há anos envio buquês que escondem plantas carnívoras. Cartas com artefatos explosivos. Flores de mentira que expiram água no meio das caras. Gosto da umidade das cavernas. Do escuro dos quartos fechados. Do silêncio das ruínas. Do Vazio das gavetas mofadas. Eu: preciso do sossego do meu ninho. Das outras cobras perigosas. Eu: se for cutucado, aviso: não há antídoto para o meu tipo de veneno.
Educação, Ciência, Tecnologia, Literatura Marginal, teatro Experimental, música Underground e cinema de arte para mitigar minha existênciazinha perva, psicologia junguiana no meio disso tudo; filosofia e imoralidade; alguns fetiches (leves e incruentos); um pedaço e um corte de cetim...
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
sábado, 13 de agosto de 2011
Postishead
nada mais anos 90 do que glory box, do portishead. Algo que anunciava uma nova sensibilidade, meio biônica, enxerto de circuitos em um espírito de abandono, com o efeito de uma onda de melancolia.
a voz quente de beth gibbons humanizava aquele lamento tristíssimo.
ela tinha um ar trágico, o equivalente ao que karen carpenter tinha sido nos anos 70 para a gente. “aquele tipo de voz de background que era usado nos filmes de Hollywood dos anos 30", escreveu um jornal gringo da época.
"não seria surpresa se ela em breve estivesse trabalhando com David Lynch”, escreveu o Independent.
na contracapa do primeiro disco solo dela, out of season, eu anotei o seguinte: "um homem anônimo olhando para uma paisagem na qual se destaca um velho ancoradouro semi-submerso, tudo permeado por uma névoa de ferrugem".
em 2003, ela e k.d.lang dividiram uma mesma noite no extinto TIM festival.
O que foi dito:
A despojada Beth Gibbons, de calça jeans com jeito de muito usada e blusinha preta, foi a primeira a cantar, acompanhada de uma banda com 6 músicos, tendo à frente o baixista, violonista e guitarrista Paul Webb, o Rustin’ Man. Webb, homem multimeios (que chega a fazer um slide na guitarra com um alicate), pilota o conceito híbrido da música de Beth, que envolve o uso da tecnologia entrelaçado com recursos acústicos e a intermediação de uma voz delicadíssima (mas também potente, quando ela quer).
Beth toca violão e também teclados (em Show, a última canção do seu set) e move-se com dificuldade pelo palco, insegura, arqueada, tímida, quase constrangida. Em contraponto, torna-se outra pessoa quando assume o microfone, fazendo pontes entre acordeãos, flautas, bandolins e guitarras. Sua música parece ser de lugar nenhum: às vezes soa como uma trilha de algum western spaghetti; outras vezes é um assalto instrumental que finge placidez e torna-se sem aviso prévio uma avalanche sonora. É moderna, cheia de recursos, mas carrega consigo a melancolia de séculos.
a voz quente de beth gibbons humanizava aquele lamento tristíssimo.
ela tinha um ar trágico, o equivalente ao que karen carpenter tinha sido nos anos 70 para a gente. “aquele tipo de voz de background que era usado nos filmes de Hollywood dos anos 30", escreveu um jornal gringo da época.
"não seria surpresa se ela em breve estivesse trabalhando com David Lynch”, escreveu o Independent.
na contracapa do primeiro disco solo dela, out of season, eu anotei o seguinte: "um homem anônimo olhando para uma paisagem na qual se destaca um velho ancoradouro semi-submerso, tudo permeado por uma névoa de ferrugem".
em 2003, ela e k.d.lang dividiram uma mesma noite no extinto TIM festival.
O que foi dito:
A despojada Beth Gibbons, de calça jeans com jeito de muito usada e blusinha preta, foi a primeira a cantar, acompanhada de uma banda com 6 músicos, tendo à frente o baixista, violonista e guitarrista Paul Webb, o Rustin’ Man. Webb, homem multimeios (que chega a fazer um slide na guitarra com um alicate), pilota o conceito híbrido da música de Beth, que envolve o uso da tecnologia entrelaçado com recursos acústicos e a intermediação de uma voz delicadíssima (mas também potente, quando ela quer).
Beth toca violão e também teclados (em Show, a última canção do seu set) e move-se com dificuldade pelo palco, insegura, arqueada, tímida, quase constrangida. Em contraponto, torna-se outra pessoa quando assume o microfone, fazendo pontes entre acordeãos, flautas, bandolins e guitarras. Sua música parece ser de lugar nenhum: às vezes soa como uma trilha de algum western spaghetti; outras vezes é um assalto instrumental que finge placidez e torna-se sem aviso prévio uma avalanche sonora. É moderna, cheia de recursos, mas carrega consigo a melancolia de séculos.
Luzes da Cidade
Esta é uma cidade muito doida.
Debaixo dela e nas beiradas dela corre um esgoto fabuloso.
Acima dela, os bares jorram um chope sedoso, o calor de 34 graus é espantado por galerias de ar-condicionado eterno. Até nas bancas de jornal tem ar-condicionado. Mulheres fantásticas entram e saem do bar a todo momento, e uma delas que está sentada numa mesa grande, sozinha, me deixa ver sua calcinha generosamente, deliberadamente.
A garota sarada toma suco de limão e come salada.
A gordinha vai à calçada fumar de 10 em 10 minutos e acabou de comer bisteca com polenta.
Terceiro chope e a mina já tá trançando. Continua com seu show off Broadway particular, já tirou a calcinha. Eu conto os trocados no bolso e preparo a retirada. Antes que ela tenha ideias.
Não consigo deixar de pensar que debaixo de nós corre um esgoto fabuloso, essa é a ideia que mais me assombra enquanto chego à estação.
O foda do metrô são essas batidas policiais. Estou na Estação Trianon-Masp quando entram os tiras, empurrando quatro pitbulls eletrônicos. Passam os aparelhos em todo lugar, nas botas do punk, na sacola de pão da velhinha, no meu laptop. Procuram drogas. As máquinas caninas substituem os antigos pastores alemães viciados das alfândegas do século 20, que cheiravam malas em aeroportos. É um software que reproduz a sensibilidade das células do epitélio nasal dos cães. A geringonça que resultou disso parece uma raposa mecânica, com uma bola na ponta do nariz metálico, lubrificada sei lá com o quê, mas que pinga nas coisas da gente - apostila, bolsa, hambúrguer, o que você estiver segurando -, como se fosse um cachorro resfriado. Essa merda cheira até 100 vezes mais do que um nariz humano.
A coisa passa por mim e me dá um calafrio, e o polícia com um rayban gigante e barba por fazer quase pisa no meu pé. O aparelho detecta alguma coisa na bolsa de escola de um moleque de uns 15 anos, provavelmente 'canabissaris', uma maconha alterada quimicamente, e eles o arrastam para fora do metrô. Seus gritos desesperados ainda ecoam no vagão quando chego na Estação Clínicas. Desço e passo pelas cabines Sexo Limpo. Foram instaladas aqui pelo Prefeito há um ano, o cara que se diz socialista. A prostituição é braba, ele resolveu fazer o mesmo que fazem em Amsterdã com os junkies. As moças de vida fácil podem fazer o serviço nas cabines, custa 1,50. Mas deveriam fechar as portas. Passo e olho inadvertidamente para dentro. O sujeito lá está batendo com força na cabeça da mulher que está agachada abraçada a sua cintura. É pancada de derrubar um boi, mas ela não interrompe o serviço. Sigo em frente.
Às vezes eu me reconheço em homens muito feios na rua. Nem sou essa ruína, mas estou em algum estágio a caminho daquilo, eu penso. O rosto parece ir derretendo aos poucos, as bochechas caem, os lábios pendem, como um boneco de cera perto de uma caldeira. Não se vê mais contornos nos olhos, eles estão embaralhados. Os dentes de baixo corroídos e protuberantes lembram os de um pequinês.
Debaixo dela e nas beiradas dela corre um esgoto fabuloso.
Acima dela, os bares jorram um chope sedoso, o calor de 34 graus é espantado por galerias de ar-condicionado eterno. Até nas bancas de jornal tem ar-condicionado. Mulheres fantásticas entram e saem do bar a todo momento, e uma delas que está sentada numa mesa grande, sozinha, me deixa ver sua calcinha generosamente, deliberadamente.
A garota sarada toma suco de limão e come salada.
A gordinha vai à calçada fumar de 10 em 10 minutos e acabou de comer bisteca com polenta.
Terceiro chope e a mina já tá trançando. Continua com seu show off Broadway particular, já tirou a calcinha. Eu conto os trocados no bolso e preparo a retirada. Antes que ela tenha ideias.
Não consigo deixar de pensar que debaixo de nós corre um esgoto fabuloso, essa é a ideia que mais me assombra enquanto chego à estação.
O foda do metrô são essas batidas policiais. Estou na Estação Trianon-Masp quando entram os tiras, empurrando quatro pitbulls eletrônicos. Passam os aparelhos em todo lugar, nas botas do punk, na sacola de pão da velhinha, no meu laptop. Procuram drogas. As máquinas caninas substituem os antigos pastores alemães viciados das alfândegas do século 20, que cheiravam malas em aeroportos. É um software que reproduz a sensibilidade das células do epitélio nasal dos cães. A geringonça que resultou disso parece uma raposa mecânica, com uma bola na ponta do nariz metálico, lubrificada sei lá com o quê, mas que pinga nas coisas da gente - apostila, bolsa, hambúrguer, o que você estiver segurando -, como se fosse um cachorro resfriado. Essa merda cheira até 100 vezes mais do que um nariz humano.
A coisa passa por mim e me dá um calafrio, e o polícia com um rayban gigante e barba por fazer quase pisa no meu pé. O aparelho detecta alguma coisa na bolsa de escola de um moleque de uns 15 anos, provavelmente 'canabissaris', uma maconha alterada quimicamente, e eles o arrastam para fora do metrô. Seus gritos desesperados ainda ecoam no vagão quando chego na Estação Clínicas. Desço e passo pelas cabines Sexo Limpo. Foram instaladas aqui pelo Prefeito há um ano, o cara que se diz socialista. A prostituição é braba, ele resolveu fazer o mesmo que fazem em Amsterdã com os junkies. As moças de vida fácil podem fazer o serviço nas cabines, custa 1,50. Mas deveriam fechar as portas. Passo e olho inadvertidamente para dentro. O sujeito lá está batendo com força na cabeça da mulher que está agachada abraçada a sua cintura. É pancada de derrubar um boi, mas ela não interrompe o serviço. Sigo em frente.
Às vezes eu me reconheço em homens muito feios na rua. Nem sou essa ruína, mas estou em algum estágio a caminho daquilo, eu penso. O rosto parece ir derretendo aos poucos, as bochechas caem, os lábios pendem, como um boneco de cera perto de uma caldeira. Não se vê mais contornos nos olhos, eles estão embaralhados. Os dentes de baixo corroídos e protuberantes lembram os de um pequinês.
Minha Bela Putana
Onde você quer ficar?
Ficou olhando o vazio. Quando atingimos a Afonso Pena, agitou os cabelos e
deu o endereço. Uma boate vadia. Subimos pela Rua da Bahia. Ia encolhida no
assento como se estivesse sentindo frio. Perguntei se não seria melhor ficar
em casa, eram quase cinco da manhã. Sacudiu os ombros.
Parei o carro bem na porta da boate. Antes de descer, ela falou:
Vai me deixar aqui sozinha?
Repeti que precisava ir. Bateu a porta com força e, com seu vestido de
índia, caminhou resolutamente para dentro da boate.
Segui pela Cristóvão Colombo, e logo adiante o novo dia começava a rastejar
atrás da serra. Eu pensava na mulher dentro daquele vestido de índia.
Pensava nela toda e dizia pra mim mesmo vai embora vai embora. Dei a volta
no primeiro cruzamento.
A boate estava vazia e tinha o aspecto gasto e melancólico do fim de noite.
Encontrei-a conversando com um idiota no balcão. Assustou quando me viu e
largou o cara na mesma hora. Atravessou a pista de dança com o andar
silvestre de uma gazela.
Não quero que você queime esse vestido – falei.
Ficou olhando o vazio. Quando atingimos a Afonso Pena, agitou os cabelos e
deu o endereço. Uma boate vadia. Subimos pela Rua da Bahia. Ia encolhida no
assento como se estivesse sentindo frio. Perguntei se não seria melhor ficar
em casa, eram quase cinco da manhã. Sacudiu os ombros.
Parei o carro bem na porta da boate. Antes de descer, ela falou:
Vai me deixar aqui sozinha?
Repeti que precisava ir. Bateu a porta com força e, com seu vestido de
índia, caminhou resolutamente para dentro da boate.
Segui pela Cristóvão Colombo, e logo adiante o novo dia começava a rastejar
atrás da serra. Eu pensava na mulher dentro daquele vestido de índia.
Pensava nela toda e dizia pra mim mesmo vai embora vai embora. Dei a volta
no primeiro cruzamento.
A boate estava vazia e tinha o aspecto gasto e melancólico do fim de noite.
Encontrei-a conversando com um idiota no balcão. Assustou quando me viu e
largou o cara na mesma hora. Atravessou a pista de dança com o andar
silvestre de uma gazela.
Não quero que você queime esse vestido – falei.
sábado, 30 de julho de 2011
Não Espere a Prmavera Bandini
Nunca pensei que eu fosse escrever isso em toda minha vida: um livro de John Fante é o pior livro que eu já li. "Espere a primavera, Bandini" é um arrazoado de personagens fracos, clichês arrasados, desejos idiotas e macaquices ítalo-americanas como nunca se viu na literatura do gênero.
Não é o mesmo Fante de "Pergunte ao Pó", "A Oeste de Roma" e "1933 foi um ano ruim". Neste péssimo livro com historinhas de família, Fante muda o narrador o tempo todo, causando cansaço no leitor. Ora é o ponto de vista - sempre em terceira pessoa - da mamma chatérrima, carola, sem inspiração, sempre às voltas com rezas, terços e auto-comiseração, ora é o ponto de vista do insuportável Arturo Bandini, visão de criança do personagem que aparece (melhorado) em "Pergunte ao Pó". Ah, claro, tem também o pedreiro Svevo Bandini, pai de Arturo, com seus charutos vagabundos e seu estômago sempre roncando.
A primeira metade do livro se perde em divagações chatas, morosas, de Arturo Bandini. Ele tem coleguinhas de classe sem graça, é apaixonado por uma Rosa Pinelli que não merece amor nem da própria mãe, e ainda tem sonhos ridículos como o de ser um astro do beisebol.
Muitas páginas se passam falando das refeições deles, dos pentelhos August e Federico (irmãos de Arturo), das rezas de Maria (mãe de Arturo), até que o papa Svevo conhece uma viúva rica e por causa disso tem o rosto arranhado pela esposa na noite de Natal.
O final lindo e triste de "Pergunte ao pó" não aparece aqui. O que vai em "Espere a Primavera Bandini" é uma sacal dissertação sobre um cachorro que Arturo adota. Claro, não aparecem cachorros em nenhuma parte do livro, a não ser nas últimas cinco páginas, em que obviamente é mencionado que "toda hora Arturo tentava levar cachorros para casa".
Nada em "Espere a primavera, Bandini" é atraente. A religiosidade falsa de Arturo, o fervor católico de Maria, o amigo farrista de Svevo, o filho carola Federico, o filho sem-personalidade August, o sonhador chato Arturo, enfim, tudo é desinteressante, sem conflito, sem drama. Na verdade, há conflitos, mas são preguiçosos e sem empatia. Como se tudo se passasse - como realmente se passa - em um longo inverno, um longo inverno sem atrativos e em modorrenta hibernação.
Se você gosta de John Fante, não leia "Espere a primavera, Bandini"
Não é o mesmo Fante de "Pergunte ao Pó", "A Oeste de Roma" e "1933 foi um ano ruim". Neste péssimo livro com historinhas de família, Fante muda o narrador o tempo todo, causando cansaço no leitor. Ora é o ponto de vista - sempre em terceira pessoa - da mamma chatérrima, carola, sem inspiração, sempre às voltas com rezas, terços e auto-comiseração, ora é o ponto de vista do insuportável Arturo Bandini, visão de criança do personagem que aparece (melhorado) em "Pergunte ao Pó". Ah, claro, tem também o pedreiro Svevo Bandini, pai de Arturo, com seus charutos vagabundos e seu estômago sempre roncando.
A primeira metade do livro se perde em divagações chatas, morosas, de Arturo Bandini. Ele tem coleguinhas de classe sem graça, é apaixonado por uma Rosa Pinelli que não merece amor nem da própria mãe, e ainda tem sonhos ridículos como o de ser um astro do beisebol.
Muitas páginas se passam falando das refeições deles, dos pentelhos August e Federico (irmãos de Arturo), das rezas de Maria (mãe de Arturo), até que o papa Svevo conhece uma viúva rica e por causa disso tem o rosto arranhado pela esposa na noite de Natal.
O final lindo e triste de "Pergunte ao pó" não aparece aqui. O que vai em "Espere a Primavera Bandini" é uma sacal dissertação sobre um cachorro que Arturo adota. Claro, não aparecem cachorros em nenhuma parte do livro, a não ser nas últimas cinco páginas, em que obviamente é mencionado que "toda hora Arturo tentava levar cachorros para casa".
Nada em "Espere a primavera, Bandini" é atraente. A religiosidade falsa de Arturo, o fervor católico de Maria, o amigo farrista de Svevo, o filho carola Federico, o filho sem-personalidade August, o sonhador chato Arturo, enfim, tudo é desinteressante, sem conflito, sem drama. Na verdade, há conflitos, mas são preguiçosos e sem empatia. Como se tudo se passasse - como realmente se passa - em um longo inverno, um longo inverno sem atrativos e em modorrenta hibernação.
Se você gosta de John Fante, não leia "Espere a primavera, Bandini"
terça-feira, 22 de março de 2011
Pulp
-(…). Eu sou boa.
-Em quê? Sabe estenografia?
-Não, mas faço coisas pequenas ficarem grandes
-Como?
-Você sabe!
-Não, não sei.
-Imagine.
-Balões?
-Você é engraçado.
-Já me disseram.
O texto da contracapa de “Pulp”, na edição da L&PM, começa com a frase “Eis um Bukowski puro-sangue”. Puro-sangue, certo? Não. “Pulp” pode ser facilmente reconhecido como livro de Bukowski porque estão lá seu humor ácido, suas ótimas frases de efeito, os diálogos fortes, os palavrões, a bebida e as mulheres, mas é provavelmente o romance mais atípico do velho Buk. Ao contrário de todos os seus outros romances, “Pulp” não é descaradamente autobiográfico, seu personagem central não é o alter-ego do autor, Henry Chinaski, mas o detetive Nick Belane. Belane tem 55 anos, está acima do peso, é durão, bebe, aposta nos cavalos e está sozinho, depois de três divórcios. Ok, ele é também uma das facetas de Bukowski, mas sua arma não é a máquina de escrever e sim um 32. Ele é um advogado de segunda classe em Los Angeles com problemas para pagar o aluguel e que não é exatamente o melhor no seu ramo, mas tem estilo.
A história começa bem, com uma sensual “Dona Morte” encomendando um serviço surreal a Belane. Ela precisa encontrar Celine, o escritor francês maldito que influenciou toda uma geração de escritores marginais, em especial Bukowski, e morreu em 1961. “Celine está morto” tenta se convencer Belane, mas não adianta ele tentar colocar ordem no que vai acontecer em “Pulp”, cada vez mais seus casos vão ficando obscuros, incluindo alienígenas, uma deliciosa mulher que estaria traindo o marido e principalmente misterioso Pardal Vermelho – uma possível referência a editora de Buk, Black Sparrow, ou ao maior clássico dos livros de detetives modernos, o “Falcão Maltês”.
No entanto, o excesso de referências à subliteratura (a quem o autor dedica a obra) e a fantasia e filmes B, acaba tornando o meio do livro um pouco esquizofrênico, um excesso de sátira que impede que ele chegue ao nível dos melhores Bukowskis como “Misto Quente” ou “Fabulário Geral do Delírio Cotidiano”. É como o caso de Quentin Tarantino em “Kill Bill” ou “Grindhouse”. Tarantino também dedicou um filme (“Pulp Fiction”) ao gênero pulp – revistas feitas com papel de baixa qualidade (a “polpa”) a partir do início da década de 1920, que geralmente tratavam de ficção científica e fantasia. Seus dois primeiros filmes foram aclamados como obras-primas, mas apesar do sucesso de Kill Bill, há um excesso de referências ali que quase soterra o filme. Na ideia de homenagear um gênero menor, o autor acaba fazendo mais uma grande sopa de referências e piadas internas àquele gênero do que uma grande obra.
Bom, mas além de ser o livro mais “pretensioso artisticamente” de Buk, com bons momentos como o sonho maluco que Belane tem no capítulo 17, “Pulp” vale por ser o romance onde o autor se despede da vida. Por trás de todos os personagens fakies e diálogos divertidos, “Pulp” é um livro sobre a morte. Talvez por isso o autor tenha adotado a ficção desta vez. Ninguém pode contar o próprio fim sendo realista. Se em “Misto Quente” ele narra sua infância, em “Cartas na Rua” seu trabalho como carteiro e em “Hollywood” sua experiência como roteirista de cinema, aqui Bukowski nos fala sobre a velhice e o fim da vida (“Pulp” é o último romance dele e foi concluído alguns meses antes de sua morte em março de 1994.) Nisso, ele se assemelha ao livro póstumo, que conta com ilustrações de Crumb, “O Capitão saiu e os marinheiros tomaram conta do navio”, o mais filosófico de Bukowski. E é no final do livro que ele volta a crescer. O capítulo 39 é uma poderosa descrição de como o autor se sente em relação à vida. Começa com Belane entre suas duas clientes gostosas/misteriosas: “Ali estava eu, basicamente, sentado entre o Espaço e a Morte”. E depois “Porque eu não podia simplesmente ser um cara assistindo a um jogo de beisebol? (…) Por que eu não podia ser um galo num galinheiro, catando milho?” Buk nunca conseguiu ser um cara comum, “um galo no galinheiro”, sempre se sentiu um estrangeiro numa sociedade que não fazia o menor sentido pra ele. A vida funcionava como a relação entre Belane e os mendigos que lhe pediam dinheiro: “Às vezes eu dava e às vezes não”.
Como termina a contracapa citada no começo dessa resenha: “Tomara que a morte estivesse linda, gostosa e sexy – como está nesta história- quando encontrou o velho Buk poucos meses depois de ter posto o ponto final nesta pequena obra-prima”.
-Em quê? Sabe estenografia?
-Não, mas faço coisas pequenas ficarem grandes
-Como?
-Você sabe!
-Não, não sei.
-Imagine.
-Balões?
-Você é engraçado.
-Já me disseram.
O texto da contracapa de “Pulp”, na edição da L&PM, começa com a frase “Eis um Bukowski puro-sangue”. Puro-sangue, certo? Não. “Pulp” pode ser facilmente reconhecido como livro de Bukowski porque estão lá seu humor ácido, suas ótimas frases de efeito, os diálogos fortes, os palavrões, a bebida e as mulheres, mas é provavelmente o romance mais atípico do velho Buk. Ao contrário de todos os seus outros romances, “Pulp” não é descaradamente autobiográfico, seu personagem central não é o alter-ego do autor, Henry Chinaski, mas o detetive Nick Belane. Belane tem 55 anos, está acima do peso, é durão, bebe, aposta nos cavalos e está sozinho, depois de três divórcios. Ok, ele é também uma das facetas de Bukowski, mas sua arma não é a máquina de escrever e sim um 32. Ele é um advogado de segunda classe em Los Angeles com problemas para pagar o aluguel e que não é exatamente o melhor no seu ramo, mas tem estilo.
A história começa bem, com uma sensual “Dona Morte” encomendando um serviço surreal a Belane. Ela precisa encontrar Celine, o escritor francês maldito que influenciou toda uma geração de escritores marginais, em especial Bukowski, e morreu em 1961. “Celine está morto” tenta se convencer Belane, mas não adianta ele tentar colocar ordem no que vai acontecer em “Pulp”, cada vez mais seus casos vão ficando obscuros, incluindo alienígenas, uma deliciosa mulher que estaria traindo o marido e principalmente misterioso Pardal Vermelho – uma possível referência a editora de Buk, Black Sparrow, ou ao maior clássico dos livros de detetives modernos, o “Falcão Maltês”.
No entanto, o excesso de referências à subliteratura (a quem o autor dedica a obra) e a fantasia e filmes B, acaba tornando o meio do livro um pouco esquizofrênico, um excesso de sátira que impede que ele chegue ao nível dos melhores Bukowskis como “Misto Quente” ou “Fabulário Geral do Delírio Cotidiano”. É como o caso de Quentin Tarantino em “Kill Bill” ou “Grindhouse”. Tarantino também dedicou um filme (“Pulp Fiction”) ao gênero pulp – revistas feitas com papel de baixa qualidade (a “polpa”) a partir do início da década de 1920, que geralmente tratavam de ficção científica e fantasia. Seus dois primeiros filmes foram aclamados como obras-primas, mas apesar do sucesso de Kill Bill, há um excesso de referências ali que quase soterra o filme. Na ideia de homenagear um gênero menor, o autor acaba fazendo mais uma grande sopa de referências e piadas internas àquele gênero do que uma grande obra.
Bom, mas além de ser o livro mais “pretensioso artisticamente” de Buk, com bons momentos como o sonho maluco que Belane tem no capítulo 17, “Pulp” vale por ser o romance onde o autor se despede da vida. Por trás de todos os personagens fakies e diálogos divertidos, “Pulp” é um livro sobre a morte. Talvez por isso o autor tenha adotado a ficção desta vez. Ninguém pode contar o próprio fim sendo realista. Se em “Misto Quente” ele narra sua infância, em “Cartas na Rua” seu trabalho como carteiro e em “Hollywood” sua experiência como roteirista de cinema, aqui Bukowski nos fala sobre a velhice e o fim da vida (“Pulp” é o último romance dele e foi concluído alguns meses antes de sua morte em março de 1994.) Nisso, ele se assemelha ao livro póstumo, que conta com ilustrações de Crumb, “O Capitão saiu e os marinheiros tomaram conta do navio”, o mais filosófico de Bukowski. E é no final do livro que ele volta a crescer. O capítulo 39 é uma poderosa descrição de como o autor se sente em relação à vida. Começa com Belane entre suas duas clientes gostosas/misteriosas: “Ali estava eu, basicamente, sentado entre o Espaço e a Morte”. E depois “Porque eu não podia simplesmente ser um cara assistindo a um jogo de beisebol? (…) Por que eu não podia ser um galo num galinheiro, catando milho?” Buk nunca conseguiu ser um cara comum, “um galo no galinheiro”, sempre se sentiu um estrangeiro numa sociedade que não fazia o menor sentido pra ele. A vida funcionava como a relação entre Belane e os mendigos que lhe pediam dinheiro: “Às vezes eu dava e às vezes não”.
Como termina a contracapa citada no começo dessa resenha: “Tomara que a morte estivesse linda, gostosa e sexy – como está nesta história- quando encontrou o velho Buk poucos meses depois de ter posto o ponto final nesta pequena obra-prima”.
segunda-feira, 7 de março de 2011
Ecce Homo - Nietzsche Bate forte, porém sem rodeios
Além de ter sido um gênio no sentido mais amplo do termo, Nietzsche (1844-1900) também foi um dos mais refinados humoristas de seu tempo, um sátiro do mesmo quilate de Voltaire. E não estou brincando com relação a isso, tão pouco menosprezando a fantástica obra nietzschiana ao enfatizar sua veia humorística, mas apenas ressaltando que esta a impressão que se tem logo ao ler as primeiras páginas de "Ecce Homo" e exemplifica plausivelmente uma das máximas gislescas de que nada é mais hilariante do que a mais pura verdade.
A extraordinária autobiografia nietzschiana é um antro da mais grandiosa e contundente ode a si mesmo. Com uma escrita apurada e cheia de deliciosas referências, ele mostra a quem ainda não se dignou a notar, o porquê de ser tão inteligente, o porquê de escrever livros tão bons, o porquê de ser tão sábio... E ainda nos leva em uma viagem pelos bastidores de sua impecável obra literofilosófica, comentando seus livros, com um humor acrimonioso atirado por uma metralhadora giratória. Nietzsche é sempre atual porque sempre esteve, enclichezadamente falando, muito à frente de seu tempo. Ele não conseguiu, em vida, nem um doze avos do reconhecimento de que era merecedor, e o que poderia ter sido um empecilho, parece ter sido a grande inspiração para que ele escrevesse este que foi o último suspiro antes do colapso mental que o atacou, a paralisia que o levaria à morte.
Logo no prólogo, ele já manda uma bala que atinge o alvo antes que este tenha tempo de dizer "Zaratustra", dizendo que "O desequilíbrio entre a grandeza de minha tarefa e a pequenez de meus contemporâneos ficou expresso no fato de que não me ouviram, nem sequer me viram." Referindo-se a seu projeto de "Transvaloração de Todos os Valores", que incluía "As Canções e Zaratustra" (publicado postumamente sob o titulo de "Ditirambos de Dioniso") "O Anticristo", "Ecce Homo" e mais um, que não chegou a ficar pronto, ele esclarece que esta seria a mais pesada exigência que jamais foi colocada à humanidade. Alguém ainda duvida? E o ritmo é constante, porém, nada monótono, sempre enfatizando a si mesmo como o grande pensador que fora e como o "ar das alturas", de sua obra, poderia ser prejudicial aos que não tinham sido talhados para respirá-lo. Entre um golpe e outro, ele demonstra sua gratidão a si mesmo e ao ano glorioso que teve (1888), em que trouxe à vida seu já citado projeto de transvaloração dos valores, "Crepúsculo dos Ídolos" e o próprio "Ecce Homo", suas tentativas de filosofar com o martelo. Noutra forma de se auto-elogiar e provar o porquê de não ser um décadent, fala de seu pai, "frágil, amável e mórbido, destinado à transitoriedade, uma lembrança bondosa da vida, e não a vida em si"; da mãe e da irmã, "quando eu procuro o mais profundo dos antagonismos a mim mesmo, a baixeza incalculável dos instintos, sempre encontro minha mãe e minha irmã"; e, especialmente, contra-ataca os alemães, seus alvos favoritos: "Sou estranho a tudo que é alemão, de modo que tão-só a proximidade de um alemão retarda a minha digestão ".Entre seus "iguais", ele coloca o casal Wagner, dizendo que "Cosima (mulher de Richard) é, de longe, a natureza mais nobre, a única mulher digna a receber o primeiro exemplar de Ecce Homo. E Richard, é o homem mais aparentado comigo... O resto é silêncio..." O tal do silêncio pode ser exemplificado pelo papel social da mulher (especialmente a do final do século XIX), que ele diz ter o páthos agressivo, ser vingativa, e por isso, fraca. Elogia Stendhal, que lhe "roubou" um dos seus melhores aforismos ateus ("Qual foi à maior objeção à existência feita até hoje? Deus"); Baudelaire, "que foi o primeiro a entender Delacroix e Wagner" e mais uns poucos sortudos.
A extraordinária autobiografia nietzschiana é um antro da mais grandiosa e contundente ode a si mesmo. Com uma escrita apurada e cheia de deliciosas referências, ele mostra a quem ainda não se dignou a notar, o porquê de ser tão inteligente, o porquê de escrever livros tão bons, o porquê de ser tão sábio... E ainda nos leva em uma viagem pelos bastidores de sua impecável obra literofilosófica, comentando seus livros, com um humor acrimonioso atirado por uma metralhadora giratória. Nietzsche é sempre atual porque sempre esteve, enclichezadamente falando, muito à frente de seu tempo. Ele não conseguiu, em vida, nem um doze avos do reconhecimento de que era merecedor, e o que poderia ter sido um empecilho, parece ter sido a grande inspiração para que ele escrevesse este que foi o último suspiro antes do colapso mental que o atacou, a paralisia que o levaria à morte.
Logo no prólogo, ele já manda uma bala que atinge o alvo antes que este tenha tempo de dizer "Zaratustra", dizendo que "O desequilíbrio entre a grandeza de minha tarefa e a pequenez de meus contemporâneos ficou expresso no fato de que não me ouviram, nem sequer me viram." Referindo-se a seu projeto de "Transvaloração de Todos os Valores", que incluía "As Canções e Zaratustra" (publicado postumamente sob o titulo de "Ditirambos de Dioniso") "O Anticristo", "Ecce Homo" e mais um, que não chegou a ficar pronto, ele esclarece que esta seria a mais pesada exigência que jamais foi colocada à humanidade. Alguém ainda duvida? E o ritmo é constante, porém, nada monótono, sempre enfatizando a si mesmo como o grande pensador que fora e como o "ar das alturas", de sua obra, poderia ser prejudicial aos que não tinham sido talhados para respirá-lo. Entre um golpe e outro, ele demonstra sua gratidão a si mesmo e ao ano glorioso que teve (1888), em que trouxe à vida seu já citado projeto de transvaloração dos valores, "Crepúsculo dos Ídolos" e o próprio "Ecce Homo", suas tentativas de filosofar com o martelo. Noutra forma de se auto-elogiar e provar o porquê de não ser um décadent, fala de seu pai, "frágil, amável e mórbido, destinado à transitoriedade, uma lembrança bondosa da vida, e não a vida em si"; da mãe e da irmã, "quando eu procuro o mais profundo dos antagonismos a mim mesmo, a baixeza incalculável dos instintos, sempre encontro minha mãe e minha irmã"; e, especialmente, contra-ataca os alemães, seus alvos favoritos: "Sou estranho a tudo que é alemão, de modo que tão-só a proximidade de um alemão retarda a minha digestão ".Entre seus "iguais", ele coloca o casal Wagner, dizendo que "Cosima (mulher de Richard) é, de longe, a natureza mais nobre, a única mulher digna a receber o primeiro exemplar de Ecce Homo. E Richard, é o homem mais aparentado comigo... O resto é silêncio..." O tal do silêncio pode ser exemplificado pelo papel social da mulher (especialmente a do final do século XIX), que ele diz ter o páthos agressivo, ser vingativa, e por isso, fraca. Elogia Stendhal, que lhe "roubou" um dos seus melhores aforismos ateus ("Qual foi à maior objeção à existência feita até hoje? Deus"); Baudelaire, "que foi o primeiro a entender Delacroix e Wagner" e mais uns poucos sortudos.
Num dos motivos que explicam sua larga sabedoria e seu caráter benéfico por ser maligno, ele cita o método de desforra: mandar o mais rápido possível, uma atitude inteligente atrás de uma burrice, pois assim talvez a mesma ainda possa ser alcançada. "Basta que me façam algo de mau, que em pouco tempo encontro uma oportunidade de expressar meu agradecimento ao "malfeitor" ou de pedir algo a ele, o que pode ser mais cortês do que dar alguma coisa. "Ainda divaga, com muita coerência, sobre o tipo de recreação (“ ler me relaxa de minha própria seriedade”), a nutrição (pro diabo a culinária alemã!), o local e o clima (seco, de Paris, Atenas, Florença) corretos para extrair o melhor de si mesmo; critica o estilo de viver "sobre as nádegas", que alguns ostentam; os "wagnerianos et hoc genus omne, que acreditam honrar a Wagner pelo fato de se considerarem semelhantes a ele". E explica "que a gente se torne o que a gente é pressupõe que a gente não saiba o que a gente é. Até mesmo as decisões erradas têm seu valor e seu sentido peculiar". Sobre a solidão, além do que foi feito no majestoso "Assim Falou Zaratustra", ele sintetiza tudo numa única frase: "minha humanidade não consiste em sentir junto com a pessoa como ela é, mas sim em suportar o fato de senti-la". E completa, primorosamente: "Sofrer por causa da solidão também é uma objeção ― eu sempre sofri tão-só por causa da 'multidão'". Amém.
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