terça-feira, 23 de outubro de 2012

Cuidado com o que ouvem


“Vigilância epistêmica” é a preocupação que todos nós devíamos ter em relação a tudo o que lemos, ouvimos e aprendemos de outros seres humanos, para não sermos enganados. Significa não acreditar em tudo o que é escrito e é dito por aí, inclusive em salas de aula. Achar que tudo o que ouvimos é verdadeiro, que nunca há uma segunda intenção do interlocutor, é viver ingenuamente, com sérias conseqüências para nossa vida profissional. Existe um livro famoso de Darell Huff chamado Como Mentir com Estatísticas, que infelizmente é vendido todo dia, só que as editoras não divulgam para quem. Cabe ao leitor tentar descobrir.

Vigilância epistêmica é uma expressão mais elegante da aquela palavra que todos nós já conhecíamos por “desconfiômetro”, que nossos pais nos ensinaram e infelizmente a maioria de nós esqueceu. Estudos mostram que crianças até 3 anos de idade são de fato ingênuas, acreditam em tudo que vêem, mas a partir dos 4 anos de idade percebem o que não devem crer. Por isso, crianças nessa idade adoram mágicas, ilusões de óticas, truques. Assim, elas aprenderão a ter vigilância epistêmica no futuro.

Lamentavelmente, muitos acabam se esquecendo disso na fase adulta e vivem confusos e enganados, porque não sabem mais o que é verdade ou mentira.

Nossa imprensa infelizmente não ajuda nesse sentido; ela também não sabe separar o joio do trigo. Hoje, o buscador eletrônico de informações na rede mundial Google indexa tudo o que encontra pela frente na internet, mesmo que se trate de uma grande bobagem ou de uma grande mentira. Qualquer “opinião” é divulgada pelos quatro cantos do mundo. O Google não coloca nos primeiros lugares os sites da Universidade de Oxford, Cambridge, Harvard ou da USP, supostamente instituições preocupadas com a verdade. In Veritas é o lema de Harvard. O Google não usa sequer como critério de seleção a “qualificação” de quem escreve o texto no seu algoritmo de classificação Ph.Ds, especialistas, o Prêmio Nobel que estudou a fundo o verbete pesquisado aparecem muitas vezes  na oitava página classificada pelo Google.

Avaliem o efeito disso entre a nossa cultura e a nossa sociedade em longo prazo.

Todos nós precisamos estar atentos a dois aspectos com relação a tudo o que ouvimos e lemos:

·         Se quem nos fala ou escreve conhece a fundo o assunto é um especialista comprovado, pesquisou ele próprio o tema. Sabe do que está falando ou é no fundo um idiota que ouviu falar e simplesmente está repassando o que leu e ouviu, sem acrescentar absolutamente nada.
·         Se o autor está deliberadamente mentindo.
Aumentar a nossa vigilância Epistêmica  é uma necessidade cada vez mais premente num tempo que todos os gurus chamam de “Era de Informação”.

Discordo profundamente desses gurus, estamos na realidade na “Era da Desinformação”, de tanto lixo e “ruído” sem significado científico que nos são transmitidos diariamente por blogs, chats, podcasts e internet, sem a menor vigilância epistêmica de quem os coloca no ar. É mais uma conseqüência dessa visão neoliberal de que todos têm liberdade de expressar uma opinião, como opiniões não precisassem de rigor científico e epistemológico antes de ser emitida.

Infelizmente, nossas universidades não ensinam epistemologia, aquela parte da filosofia que nos propõe indagar o que é real, o que dá para ser mensurado ou não, assim por diante.

Embora o ser humano nunca tenha tido tanto conhecimento como agora, estamos na “Era da Desinformação” porque perdemos nossa vigilância epistêmica. Ninguém nos ensina nem nos ajuda a separar o joio do trigo.

Foi por isso que as “Elites” intelectuais da França, Itália e Inglaterra no século XIV criaram várias universidades com catedráticos escolhidos criteriosamente, justamente para servir de filtros e proteger suas culturas de crendices, religiões oportunistas e espertos pregando mentiras.

Há 500 anos nós, professores titulares, livres-docentes e doutores, nos preocupamos com o método científico, a análise dos fatos usando critérios científicos, de lógica, estatísticas de todos os tipos, antes de sair proclamando “Verdades” ao grande público. Hoje, essa elite não é mais lida, prestigiada, escolhida, entrevistada nem ouvida em primeiro lugar. Pelo contrário, está lentamente desaparecendo, com sérias conseqüências.

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